Quando a luta antirracista é esvaziada, transformada em símbolo e utilizada para manter o mesmo sistema de poder
O debate racial tem ocupado cada vez mais espaço no cenário político, institucional e midiático brasileiro. No entanto, especialistas e ativistas alertam que esse avanço nem sempre representa mudanças reais. Em muitos casos, a pauta racial é apropriada de forma superficial, servindo mais como ferramenta estratégica para preservação do status quo do que como instrumento de transformação social.
Segundo análise do artista e pensador Klebinho Moreira, mudanças estruturais representam uma ameaça direta a quem se beneficia do modelo atual de poder. Por isso, adotar o discurso racial sem enfrentar as bases econômicas, políticas e institucionais da desigualdade se torna uma saída conveniente. A retórica progressista passa a funcionar como adaptação do sistema, não como ruptura.
A pauta racial, quando utilizada apenas no campo simbólico, gera capital político e moral. Ela rende engajamento, votos, visibilidade e legitimidade pública, sem exigir redistribuição de recursos, revisão de políticas públicas ou enfrentamento de elites econômicas. Trata-se, segundo Klebinho, de um ativismo de baixo risco e alto retorno, que mantém a desigualdade enquanto projeta uma imagem de inclusão.
Um dos exemplos mais recorrentes desse processo é a chamada representatividade vazia. A nomeação de pessoas negras para cargos sem poder decisório cria a aparência de diversidade, mas preserva o controle das decisões estratégicas nas mesmas estruturas de sempre. O negro passa a ocupar o lugar de símbolo institucional, e não de agente político com autonomia real.
Outro efeito apontado é a despolitização da luta racial. Ao reduzir o debate a identidade, estética ou discursos emocionais, questões centrais como renda, acesso à terra, educação, saúde, sistema penal e participação no poder deixam de ser prioridade. A luta perde seu caráter estrutural e se transforma em performance, esvaziando seu potencial transformador.
No campo eleitoral e midiático, a instrumentalização também é evidente. Movimentos sociais e pautas raciais são utilizados como base de mobilização e audiência, sem participação efetiva na construção de projetos de poder. A população negra é convocada para legitimar discursos, mas segue afastada dos espaços onde as decisões são tomadas.
Para Klebinho Moreira, a apropriação da pauta racial sem compromisso real não é incoerência, mas estratégia. Ela administra o conflito racial em vez de resolvê-lo, mantendo as desigualdades enquanto vende a ideia de progresso. O desafio, segundo ele, é recolocar a luta racial no centro das transformações estruturais, onde ela sempre pertenceu.